15mar2017

Casamentos: tênis vs frescobol & Coluna do Noivo

Relacionamentos/Casamentos
Nem todos são como nos contos de fada, onde o história termina com: “E ELES VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE”! Seria ótimo, não seria? Mas no mundo real, esse tipo de final não existe, pelo menos eu não conheço nenhum. Por isso, resolvi compartilhar com vocês hoje, um texto fantástico, de um pensador brasileiro, Rubem Alves, que li há alguns anos atrás. Era um daqueles textos que faziam todo o sentido! Aqueles textos que faziam com que a ficha caísse… E a cada frase, a cada linha percorrida, ele fazia mais sentido, tudo fica claro e translúcido!
Relacionamentos são complicados, fato, mas por inúmeras vezes escolhemos o caminho mais árduo, mais duro a ser seguido: O CAMINHO ERRADO. O texto é simples, direto e avassalador.

relacionamento

Imagem via Timitude

Resumindo:
Acredito que muitas aqui já devem ter jogado, ou pelo menos ter visto alguém jogar frescobol. O jogo é simples, consiste em jogar com e para o seu parceiro. O intuito do jogo é fazer o máximo de rebatidas em conjunto, você facilita a jogada para seu parceiro, e ele a sua! #SIMPLESASSIM!

Um ajuda o outro, e quando o outro joga uma bola longe, ou dificulta a jogada do parceiro, esse que errou pede desculpas!
Já o tênis, é o oposto. Um contra o outro, um tentando deixar a bola inalcançável, tentando fazer com que o seu adversário perca o controle, a paciência e o que mais tiver para perder, apenas para  ter alguma “vantagem” sobre o oponente! Ahhh, e se o adversário cair no chão tentando rebater a bolinha, a vibração é ainda MAIOR.

casamento tênis

Imagem via Power of Positivity

Fácil de perceber a diferença, não é mesmo? E por que insistimos tanto em jogar tênis com a pessoa que está ao nosso lado? Por que, e para que, afinal, após o êxtase da “vitória” (entre aspas mesmo), até o suposto ganhador acabará, em determinado momento, ficando mal com a situação. Masoquismo? Querer sempre ter rezão? Não importa o motivo, se pararmos para pensar, não faz o menor sentido querer ver a pessoa escolhida por você, sua alma gêmea, derrotada, amargurada e aflita… Afinal esse outro, não é nenhum adversário, muito pelo contrario, É A PESSOA QUE VOCÊ AMA!!!!

Então, bora jogar frescobol pessoal,  ambos sairão vitoriosos! A ideia principal, não é a diversão?!

DIVERSÃO PURA E SIMPLES A DOIS!!!

casamento frescobol

Imagem via Geekfill

Segue abaixo o texto original:

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:

Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: “Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?”. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.

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Imagem via Lunarbaboon

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites.

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Imagem via Favim

O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

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Imagem via Today

O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

casamento tênis

Imagem via Boldsky

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir… E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos…

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Imagem via People Gnome

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá…
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:

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Imagem via Google

Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: “Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo”. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: “Tens razão, minha querida”. A situação está salva e o ódio vai aumentando.

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Imagem via Wiki

Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão… O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim…

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